O bem-estar é uma habilidade

O psicólogo Daniel Goleman, em seu livro A arte da meditação, conta que, ao ser surpreendido com um diagnóstico de hipertensão, resolveu participar de um retiro de meditação em um lugar tranquilo, uma floresta no Arizona. Ali, quarenta pessoas se reuniram para estudar meditação com um mestre birmanês.

 

O dia começava às quatro horas da manhã, quando um sino tocava, e terminava às dez da noite. Nada de telefone, nada de conversa, nem mesmo contato visual. Refeições em silêncio.

 

A única tarefa do grupo era desenvolver atenção à respiração: observar cada inspiração e expiração. A velocidade, o ritmo, o som. A intenção era desenvolver um estado consciente.

 

A técnica, aparentemente, era simples. “Consistia em desprezar qualquer pensamento que não fosse referente à respiração”, explica Goleman. “Quando isso ocorria, a orientação era simplesmente retornar ao foco da respiração.”

O psicólogo afirma que, passada uma semana, era possível perceber padrões, ritmos e nuances da respiração nunca antes percebidos. Surgira um profundo refinamento nessa simples observação da respiração. E tornara-se possível responder a uma pergunta feita pelo professor: “Esta manhã, no momento em que acordou, você estava inspirando ou expirando?”

 

Aos poucos, esse estado de atenção foi se ampliando para tudo o que se fazia: caminhar, comer etc. Quando a mente divagava, podia-se perceber exatamente o pensamento que produzira a divagação.

 

Goleman diz que procurou algo radical por entender que não basta escapar da agitação da vida. É necessário escapar da agitação da mente. Ele exemplifica que você pode estar deitado em uma praia paradisíaca com a mente lhe atormentando.

 

O autor conclui que, na verdade, muitas “fugas” para o descanso não atingem o objetivo, uma vez que os sistemas neurológico e cardiovascular não distinguem um perigo verdadeiro de um perigo imaginado. O cérebro reage da mesma forma para um perigo real ou imaginado, pondo o organismo em alerta. 

 

Esse foi um treinamento de disciplina da mente, porque a meditação é diferente do relaxamento, no qual a mente pode vagar à vontade. A meditação treina o cérebro para um estado de atenção consciente, que é a base da presença consciente. Desenvolve a concentração e abre a percepção, facilitando o pensamento criativo e os insights, e impedindo que a mente divague em pensamentos que podem causar estresse e doenças.

Novos sentimentos e pensamentos

Todos nós que já entendemos que prazer não significa felicidade e bem-estar temos buscado encontrar caminhos e estratégias que nos levem a adquirir um controle sobre a mente. Porque a vida é o que é. Não podemos mudar as circunstâncias, mas podemos treinar a mente para responder às circunstâncias de forma cada vez mais eficaz. E isso traz bem-estar

 

No livro Felicidade – A prática do bem-estar, o monge budista Mathieu Ricard afirma que gosta de usar o termo bem-estar porque este envolve também um estado fisiológico. Para ele, devemos compreender que saúde mental não é apenas ausência de doença mental. 

 

A pergunta é: Nós estamos realmente vivendo de uma maneira ideal?

 

Frequentemente, estamos envolvidos em tormentos mentais, toxinas mentais, obsessões, diferentes sentimentos negativos. E certamente estes não são estados mentais saudáveis. 

 

Ricard ensina que devemos buscar o bem-estar com determinação, percebendo as situações de uma nova forma, cultivando novos sentimentos, pensamentos e maneiras de ser. E livrando-nos de velhos hábitos de percepção e conceituação.

 

Muitas vezes, são esses hábitos mentais que padronizam a maneira como encaramos situações que impedem o bem-estar – muito mais do que as próprias situações. Padronizamos e fechamos nossas visões, e acreditamos nelas como únicas verdades. 

 

A neurociência tem avançado bastante na compreensão do funcionamento e potencial do cérebro. E veio a confirmar o que ensinamentos budistas afirmam há 2.500 anos sobre a capacidade que temos de mudar a mente para termos mais foco e clareza ao lidarmos com diferentes situações. Porque o estresse, e a consequente ausência de bem-estar, resultam da maneira como lidamos com cada coisa.

 

 A vida sempre terá situações desafiadoras, mas é exatamente essa variedade de situações que nos treina, que nos torna mais capazes e fortes, que desdobra nosso potencial e o disponibiliza para nossa ação no mundo. 

Autotransformação e treino mental

O budismo entende a pessoa humana como uma fonte dinâmica de constante mudança, afirmando que o self e a mente são extremamente plásticos. Embora sejamos, em certa medida, produto do passado, sempre temos a oportunidade de dar outra forma a nós mesmos, por causa da natureza profunda da mente, que é inerentemente vazia.

 

Para o budismo, a mente tem um fantástico poder de autotransformação. No centro da prática budista estão a autotransformação e o treino mental, que nos permitem identificar e controlar eventos mentais e emocionais quando eles surgem. Assim, somos capazes de ter pensamentos que se sobrepõem a sentimentos que nos causam aflição mental, como a raiva, por exemplo.

 

Comprovando o budismo, a neurociência atesta a capacidade do cérebro de mudar com a experiência. Os sistemas cerebrais podem ser esculpidos com a experiência e até com a imaginação. 

 

Você produz mudanças no cérebro por meio de experiências, pensamento e imaginação. Sua imaginação é capaz de produzir atividade na área do cérebro relacionada ao que foi imaginado.

 

Hoje sabemos que podemos exercitar as habilidades emocionais durante toda a vida, assim como o que podemos fazer com o corpo. Esculpimos circuitos cerebrais da mesma forma que esculpimos músculos. Está comprovado que o bem-estar é uma habilidade que pode ser adquirida, e está relacionado à maneira de pensar e sentir. Neste sentido, a neurociência e o budismo estão conectados e em sintonia. 

Estratégias para o bem-estar

É comum termos estratégias para o prazer, mas não para o bem-estar e a felicidade. Quais são as estratégias que podem nos ajudar a treinar a mente para o bem-estar?

 

Os exercícios físicos produzem vitalidade para o corpo e também alteram a atividade do cérebro e o estado mental, em decorrência da conexão entre corpo e mente/cérebro. Assim, produzem bem-estar. A liberação de neuro-hormônios – como endorfina, serotonina, dopamina – após vinte minutos de exercícios produz um novo estado mental/emocional e insights. E experimentamos bem-estar. 

 

Reservar um tempo para o silêncio e a contemplação também é uma estratégia para o bem-estar e a felicidade. O estado de serenidade é fundamental para o bem-estar. Pode ser praticado por meio de simples pausas. Permanecemos quietos por alguns segundos, abrindo mão de qualquer objetivo ou ação.

 

A pausa interrompe o “piloto automático”, ajudando-nos a reduzir o ritmo de reação em cadeia de forma não consciente. Apenas ficar quieto e observar o que se passa dentro de si mesmo pode ser muito poderoso. Na pausa, nossa inteligência natural surge.

 

Olhar uma situação sob outra perspectiva é mais uma estratégia. A psicologia budista usa o termo reajuste cognitivo para isso. Trata-se de uma

técnica poderosa para mudar a mentalidade e direcioná-la para a felicidade. 

 

Podemos também nos distanciar ao percebermos pensamentos negativos. Esta é uma estratégia para o bem-estar e a felicidade porque impede a identificação e a consequente ruminação. Ruminação é o processo de repetição do pensamento obsessivamente, sem nenhum proveito ou utilidade. 

 

Uma mente calma é uma mente útil, diz o Dalai Lama. Útil, porque é aberta ao momento presente e às possibilidades contidas nele. Portanto, é importante nutrir adequadamente a mente para tê-la calma. Nutrições inadequadas agitam a mente.

 

O monge budista Thich Nat Hannh afirmou: “Um sentimento agradável é uma energia que nutre. A irritação é um sentimento que desnutre.” Use a imaginação para criar uma imagem mental que conduza ao bem-estar. Ou use alguma memória que traga sentimentos agradáveis. 

O bem-estar deve ser o estado de “pano de fundo” de tudo que esteja se passando. Isso pode acontecer porque pode haver uma sobreposição de sentimentos. Posso estar em um momento difícil, mas, ao mesmo tempo, sentir paz em meu interior.

 

Outra estratégia que nos ajuda a treinar a mente para o bem-estar é a meditação formal. Alguns mestres nos oferecem boas observações sobre essa prática milenar simples, mas cercada de mitos que levam muita gente a desistir de adotá-la.

 

Marcos Schultz afirma: “A meditação é um treino de apenas observar e desidentificar pensamentos, e não um treino de não pensar.” Pema Chodron diz: “A meditação não é nada de especial. Apenas nos exercitamos a sermos mais abertos, receptivos e sem julgamento a qualquer coisa que surja em nossa mente.” 

 

Existe uma estratégia que está além de todas as outras que possamos praticar, que é o nosso desejo de ir para algo além do que estamos hoje. Não é um objetivo claro e definido, porque não é mental ou racional. É um chamado da alma. Pode se manifestar em cada um de nós de diferentes formas. 

 

Esse chamado da alma para a evolução pode se manifestar em cada um de nós de maneiras diferentes. E podemos “escutá-lo” de diferentes formas. Escutá-lo como uma inquietação, uma insatisfação ou uma intuição. A maneira como a alma nos aciona para ir além não importa. Importa se vamos escutá-la. Quando escutamos a alma, experimentamos um bem-estar diferente. Algo em nós se encaixa. 

 

Você já experimentou isso?

 

Berenice Kuenerz

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