PROCRASTINAÇÃO
O ANTIEMPODERAMENTO

Em live realizada em 1º de fevereiro de 2021

Por que procrastinação é um tema tão mobilizador para todos nós? Na minha visão, porque trata de algo do qual nem sempre estamos conscientes: o uso do tempo de vida, que é limitado.

 

O comportamento de procrastinação é um dos grandes impedimentos para alcançarmos nossos objetivos, para alcançarmos uma vida de realização e bem-estar. A ação consciente e bem-direcionada empodera. A procrastinação cria um estado de impotência, falta de poder, insatisfação consigo mesmo, frustração, autodesvalorização, automatismo. E não se consegue nada com esses estados de ânimo desempoderantes. 

 

A procrastinação pode vir vestida de preguiça, mas tem raízes bem mais profundas. O que existe por trás dela? Vou focar em duas causas: medo do fracasso e falta de motivação.

 

PRIMEIRA CAUSA: MEDO DO FRACASSO

 

A procrastinação é a escolha de um comportamento para lidar com algo que ameaça. O fracasso é uma grande sombra ameaçadora para todos nós, e começa cedo na vida. Envolve medo de não ser querido(a), de não ser suficiente, de ser julgado(a) negativamente, de ser marginalizado (a), excluído(a), de ser menos.

 

O perfeccionismo está associado ao medo do fracasso. “Tenho que fazer perfeito para não correr o risco de fracassar.” Nosso cérebro está preparado para captar qualquer ameaça. E graças a isso evoluímos desde as cavernas, porque se aparecia um leão, todo o nosso organismo se preparava para atacá-lo ou para fugir. Hoje, as ameaças são mais complexas, e não menos ameaçadoras. E a parte do cérebro que capta ameaças é bastante forte. 

 

Os diferentes medos nos causam ansiedade, angústia, insegurança, ainda que suas causas não estejam totalmente conscientes. Estão atuando de forma subliminar em nossa consciência. Então, nossa reação é afastar o que está ameaçando, adiar, postergar, negar, pôr de lado, tornar invisível. 

 

A procrastinação é cheia de desculpas, muitas vezes inteligentes. Parece descomplicar, mas complica a vida. Você adia para ficar longe, protegido da ameaça, buscando se sentir tranquilo, sem ansiedade ou angústia. Mas não é isso que acontece. É um péssimo negócio. Pode gerar de imediato um certo alívio, mas este não é duradouro.

 

Depois desse alívio inicial vem uma sensação de insatisfação, desconforto, incompetência. Quando você tem dificuldade de perceber a si mesmo, a sensação de insatisfação é difusa. Porque a procrastinação não elimina os anseios que todos nós temos. E como não os elimina, cria conflito. Você que ir adiante, mas não quer agir. Para não experimentarmos esses desconfortos, continuamos nos anestesiando, seja com programações, Netflix, comida, bebida, satisfações momentâneas, conversas superficiais. 

 

Como trabalhar isso?

 

Primeiro: Tomar consciência de que você está procrastinando. Enxergar a procrastinação por trás das desculpas que você dá.

 

Segundo: Perguntar-se: Por que eu procrastino? Parar e se escutar. Para entender. Você não consegue administrar uma coisa que desconhece. O que está por trás da procrastinação? Ela não é a causa, é o sintoma. Qual é o medo? O que estou tentando afastar de mim? 

 

Terceiro: Resistir ao medo. Frei  David Steindt Rast, no documentário Em busca do bem-estar, afirma que quando você diz “Não, não, não”, fica preso aí. Preso é igual a estagnado, parado.  E na procrastinação você pode estar fazendo muitas coisas, mas na verdade está parado, porque não está fazendo o que leva você adiante. Está se ocupando com o que não é essencial. 

 

Quando você resiste ao medo, você o atravessa e passa para outro nível. Você atravessa o portal do medo, como diz a coach Elena Espinhal. Frei David cita o estreito canal vaginal, por onde temos que passar para nascer. E experimentamos o primeiro medo, a primeira angústia. Atravessamos ou ficamos parados?

 

Temos que passar por vários lugares estreitos na vida. Atravessamos ou ficamos parados onde a palavra-chave é não. O que está faltando para você ganhar o jogo é aceitação ativa.[1] Esta é a mais inteligente estratégia para lidar com  situações difíceis ou que nos assustam. Não dizer não, mas dizer sim

 

Se essa consciência não for o suficiente para você se soltar da falsa proteção da procrastinação, sugiro que use a ferramenta da visualização. Primeiro, visualize a si mesmo procrastinando em diferentes  situações. Imagine a si mesmo em mais um ano de procrastinação. Como se sentiria, como estaria sua vida, qual seria o efeito em sua vida, em sua pessoa? Se escolher procrastinar, escolha com consciência, responsabilizando-se pelas consequências.

 

Outra ferramenta que pode ser usada: Pegue uma folha de papel, faça uma cruz no meio, dividindo-a em quatro partes, e escreva nas duas partes de cima: O que de pior que poderá acontecer se eu continuar procrastinando? O que de melhor que poderá acontecer se eu continuar procrastinando? Nas duas partes de baixo, escreva: O que de pior que poderá acontecer se eu não procrastinar? O que de melhor poderá acontecer se eu  não procrastinar? Escreva as respostas, analise e escolha.

 

Quando procrastinar se torna um hábito na vida, significa que já formou um caminho neural no cérebro, ou seja, já estabelecemos um hábito. Para desativar esse caminho, é preciso não apenas tomar consciência, mas também um esforço continuado para resistir a esse movimento que já se automatizou. É preciso praticar o esforço na direção contrária conscientemente. Apenas consciência não resolve. 

 

SEGUNDA CAUSA: FALTA DE MOTIVAÇÃO

 

Muitas vezes, há um conflito, uma  dissonância ou uma lacuna – como disse Frei David – entre o que realmente tem significado ou valor para nós e o que fazemos. Essa lacuna é desconfortável, e para fugir disso, procrastinamos.

 

“A motivação é o que proporciona qualidade em tudo o que fazemos”, diz o monge budista  Mathieu Ricard em Em busca do bem-estar. Muitas vezes, a procrastinação resulta da falta de motivação. Alguns estados depressivos podem ser resultado de falta de motivação. Mathieu conta que seu mestre sempre começava um ensinamento falando sobre motivação, por ser esse o ponto fundamental para qualquer ação. 

 

Por baixo de toda procrastinação existe uma busca de felicidade, bem-estar e realização, mas muitas vezes nos confundimos em relação ao que realmente é importante para nós. 

 

Não é claro o que realmente tem sentido em nossas vidas. Esse desconhecimento, esse estado de inconsciência sobre nós mesmos, nos leva a nos ocuparmos do que não tem sentido para nós, a nos  comprometermos com o que não tem sentido para nós, a escolhermos isso. Isso acontece no trabalho, em escolhas profissionais, relações, compromissos sociais, formas de lazer. Onde vamos morar, com vamos nos relacionar. Acontece nas diferentes escolhas que fazemos na vida.

 

Como você terá energia ao acordar para fazer o que não tem sentido para você? Motivação é energia para ação. Se algo não tem sentido para você, não gera motivação e, consequentemente, não gera energia. Quando existe motivação, tudo faz sentido. Todo esforço faz sentido. Você age com direção. 

 

Se algo não fizer sentido para você, a tendência será procrastinar. Como lidar com isso? Considero a prática de autoindagação fundamental para você definir a direção que dará a sua vida. 

 

Procrastinamos não apenas na falta de ações efetivas, mas também no pensamento, na reflexão, no adiamento da autoindagação. Porque isso nos fará ver o que não queremos ver, o que queremos colocar longe de nossa  consciência. Anestesiamos nossa incrível capacidade de consciência, ocupando nossa mente com o que não tem importância, com banalidades.

 

Existem perguntas que podem definir sua vida. O que tem sentido em sua vida? O que de fato tem valor? Se não existisse nenhuma possibilidade de perda, o que você faria que não faz hoje? Se não houvesse medo e você confiasse em si mesmo, o que faria? O que daria sentido a sua vida? O que para você é mais importante que dinheiro, sucesso  ou reconhecimento? O que faria você se levantar da cama feliz todos os dias? Quem você seria se não houvesse “se”? 

 

Essas perguntas levam a uma clareza dentro de você. E é essa clareza, ou essa  consciência, que traz a liberdade interna. Se você não sabe nada sobre si mesmo, vai funcionar no modo automático. 

 

Em minha perspectiva, é muito mais efetivo trabalhar sobre a liberdade do que sobre o  sofrimento. Não use tempo e esforço para diminuir o sofrimento, porque isso irá potencializá-lo. Use-os para ampliar sua liberdade interior. 

 

Temos que diferenciar momentos de pausa e de restauração da energia – muitas vezes necessários – de procrastinação. Se você se mantiver focado na impossibilidade, tenderá a procrastinar. Se focar na possibilidade, não irá procrastinar. 

 

Qualquer treinamento leva tempo, porque o cérebro continua se assustando e querendo eliminar a ameaça. Mas chega o momento em que você diz para essa parte de seu cérebro que quer protegê-lo: “Meu amigo, fique calmo, estou mais treinado, deixa comigo.”

 

Se você procrastina, você se desempodera e paralisa sua vida. Terá uma vida limitada, estreita. Não conhecerá seu potencial, porque não abrirá espaço para ele se manifestar. É um estado mental que não cria alívio, mas sofrimento. 

 

Em minha perspectiva, existe uma razão ainda mais importante para não procrastinar: A vida é valiosa, e não é muito longa. E quando falamos isso estamos falando de tempo. Estou usando produtivamente meu tempo de vida? Como eu poderia usar melhor  meu tempo? Mathieu sugere esta pergunta. Ele cita Sêneca, filósofo estoico: “Não é que não tenhamos tempo, mas sim que perdemos muito tempo.” Quando você procrastina, perde um tempo precioso de sua vida, cria adiamentos. 

 

As perguntas são: Que futuro você está criando para si mesmo? O que você quer ser nessa vida? Qual é sua escolha? 

 

Embora eu não queira criar uma nova ansiedade em você, ainda assim quero lhe lembrar que a vida não é tão longa, e que a cada dia criamos as condições para que ela floresça ou não. 

 

[1] Aceitação ativa é aceitar o fato, mas, ao mesmo tempo, examinar como escolher responder a essa realidade que já está aí.

Berenice Kuenerz

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